O que ninguém te conta sobre o café

Vamos falar sobre o que poderá estar no café?

É uma das primeiras coisas que fazes de manhã. Certo? O cheiro do café a encher a cozinha, a chávena quente entre as mãos, aquela sensação de que o dia vai correr bem. O café é quase um ritual sagrado em Portugal e em muitos países ao redor do mundo.

Mas já alguma vez te perguntaste o que está mesmo dentro da chávena de café que bebes?

A maioria de nós não questiona. Eu pelo menos não. Até esses dias deparar-me com essa reflexão. O café é café, é natural, vem de um grão, o modo de preparação é simples — o que pode haver de errado? A resposta pode te surpreender.

O que deveria lá estar

Na sua forma mais pura, o café é simples: grãos torrados e moídos, depois extraídos com água quente. Nada mais. Existem duas variedades principais que encontras no mercado: o arábica, mais suave e aromático e o robusta, mais intenso, amargo e com mais cafeína. A maioria dos cafés que temos nos estabelecimentos comerciais são uma mistura das duas variedades.

Até aqui, tudo bem.

O problema começa quando olhamos para o que pode entrar no processo — sem que ninguém te avise.

O que pode estar lá — e que ninguém te conta

Imagem 1- Grãos de café com folhas, alguns defeituosos
Grãos de café

1. Grãos de baixa qualidade disfarçados

Muitos cafés de marca branca ou de preço mais baixo usam misturas com grãos defeituosos, fermentados ou mal armazenados. Estes grãos afetam o sabor, claro — mas também podem conter níveis muito elevados de contaminantes. A proporção exata de arábica e robusta raramente é declarada no rótulo e a lei não obriga a isso.

2. Ocratoxina A — um contaminante oculto que pode estar no café

Este é um dos temas menos falados e que poucos conhecem. A ocratoxina A é uma micotoxina — uma toxina produzida por fungos — que pode estar presente em grãos mal armazenados ou de origem duvidosa. Geralmente aparecem devido a excesso de humidade, temperaturas elevadas e mas condições de conservação, secagem inadequada. Mas é importante salientar que a presença de fungos não significa que há contaminação por ocratoxina A .

A toxina é produzida somente por determinadas espécies de fungos quando as condições ambientais são favoráveis. A EFSA (Autoridade Europeia para a Segurança dos Alimentos) já identificou o café torrado como uma das fontes de exposição a esta substância na dieta europeia. Existem limites legais estabelecidos, mas o consumidor comum nunca ouve falar disto.

3. Acrilamida — o subproduto da torrefação

A acrilamida forma-se naturalmente durante o processo de torrefação do café, quando os grãos são expostos a altas temperaturas. A Agência Internacional de Investigação sobre o Cancro classifica-a como “possível cancerígeno para humanos”. O café solúvel tende a ter níveis mais elevados do que o expresso. A União Europeia estabeleceu valores de referência, mas não é obrigatório declarar os níveis no rótulo do produto.

4. Resíduos de pesticidas

O café é uma das culturas com maior uso de pesticidas a nível mundial, especialmente quando cultivado em regiões com menor regulamentação agrícola. Embora os processos de torrefação reduzam alguns resíduos, estudos mostram que nem todos são eliminados. Os cafés certificados como biológicos estão sujeitos a controlos mais rigorosos, mas representam ainda uma pequena fatia do mercado.

Cápsulas de café: o que o rotulo te diz- e o que esconde

As cápsulas de café são práticas, não há dúvida. Mas há uma questão que muitos consumidores desconhecem: o material da cápsula — plástico ou alumínio — pode interagir com a água quente durante a extração. Alguns estudos levantam questões sobre a migração de microplásticos e compostos químicos para o café, embora a investigação ainda esteja em curso. Além disso, os cafés de cápsula tendem a ter menos transparência sobre a origem dos grãos do que os cafés de especialidade.

Se fores ler o rótulo do teu café hoje, provavelmente vais encontrar: nome do produto, peso, data de validade, e talvez uma descrição vaga como “mistura de cafés torrados” e mais nada

A lei europeia não obriga os produtores de café a declarar a percentagem de cada variedade utilizada, a origem específica dos grãos, os níveis de acrilamida ou ocratoxina, nem os métodos de armazenamento e transporte.

Ou seja, podes estar a pagar por um produto de qualidade duvidosa sem qualquer forma de verificar.

Como escolher melhor — sem complicar a vida

Não precisas de te tornar especialista em café da noite para o dia. Aqui ficam algumas dicas simples:

  • Prefere cafés com origem declarada — quando o rótulo diz “100% arábica” ou menciona o país de origem, é um bom sinal de maior transparência.
  • Cafés de especialidade são mais rastreáveis — costumam ter informação detalhada sobre a fazenda, o método de colheita e a data de torrefação.
  • Biológico reduz a exposição a pesticidas — procura certificações reconhecidas como a EU Organic.
  • Menos solúvel, melhor — o café solúvel passa por processos industriais mais intensos e tende a ter níveis mais elevados de acrilamida.
  • Cápsulas com moderação — se as usas todos os dias, considera alternar com outros métodos de preparação.

A tua chávena, a tua escolha

O objetivo deste artigo não é assustar-te nem fazer-te abandonar o café — longe disso. Em doses moderadas, o café tem inclusivamente benefícios associados à saúde, como já sabes.

O meu objetivo é que possas fazer escolhas mais informadas. Porque o direito a saber o que estás a consumir é teu — e devia ser simples de exercer.

Na próxima vez que fores comprar café, dedica dois minutos ao rótulo. E se não encontrares informação, talvez valha a pena perguntar porquê.

Gostas de conteúdo como este? Segue o Alimetria e fica a saber o que está mesmo no teu prato — e na tua chávena.

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